SONO E SONAMBULISMO

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Sono e Sonambulismo

SONO E SONAMBULISMO

por Luiza Elena Leite Ribeiro do Valle*

Sonambulismo é um distúrbio que se manifesta durante o estágio mais profundo do sono, o sono de ondas lentas, não rem. É um transtorno do sono que se caracteriza pela realização de atividades motoras sem a consciência plena da pessoa, que está adormecida. A palavra sonambulismo significa: andar (ambular) dormindo. Durante os episódios, a pessoa pode se sentar na cama, andar pela casa, falar sem nexo, ir ao banheiro, comer sem despertar, mudar de roupa, abrir e fechar portas e janelas.

O sono sempre despertou a curiosidade das pessoas, já que ele ocupa uma grande parte de nossas vidas. O filósofo Aristóteles propôs que os sonhos traziam informações sobre saúde, merecendo ser investigados pelos médicos, como o fez Hipócrates, o pai da medicina. Os gregos, assim como os babilônios e os egípcios, reconheciam nos sonhos mensagens divinas. Muitas passagens Bíblicas contam sobre mensagens proféticas em sonhos, como no Egito Antigo, quando José previu as pragas que se abateriam sobre o povo. Assim também, segundo a Bíblia, o nascimento de Jesus foi comunicado por mensagens oníricas.

Com o passar do tempo, os recursos de comunicação se multiplicaram e os conhecimentos também. O sono e as manifestações que ocorrem enquanto dormimos continuam a instigar a mente e a ser alvo de interesse de todos, tanto na busca por respostas científicas, como na preocupação que surge na possibilidade do rompimento de uma rotina na escuridão da noite. Quando falamos de sonambulismo, um transtorno do sono, surge na mente a ideia de uma pessoa caminhando com os olhos parados no vazio, sem rumo certo, como um robô desgovernado ou alguém fantasmagórico, assustadoramente inesperado.

No atendimento clínico, em Psicologia, as perguntas sobre o sono são parte dos protocolos de investigação dos problemas que trazem o paciente a uma consulta. Frequentemente, não são as questões do sono que levam o cliente a buscar ajuda, porque esses problemas, para o leigo, não estão listados como prioridade na vida diária. O sono acaba sendo visto como alguma coisa que você tem que fazer, quando terminar todas as outras tarefas ou quando não aguentar mais adiar a vontade irresistível de deitar… Às vezes, o sono é tão desafiado, que desaparece, deixando só o embaçado cansaço que sobra da tensão que não obedece ao simples fechar dos olhos. E depois, de ser adiado até as últimas forças de nossa dedicação a outro interesse, o sono finalmente mostra a sua vingança ciumenta e nos apresenta aos desgastantes rodopios da insônia, em cima de uma cama.

O sono é um regulador essencial das condições de saúde e dele depende o desempenho físico e mental de uma pessoa; o sono é capaz de influir na coordenação motora, na capacidade de raciocínio, memória, ansiedade e disposição emocional, recuperação física, crescimento e temperatura corporais – só para falar de forma mais geral. As perguntas sobre o sono, no entanto, são importantes para quem procura restituir o caminho da saúde de alguém – e entenda-se como saúde o processo geral de bem-estar, que não depende apenas da ausência de doença física, mas da satisfação da mente no viver. Entretanto, como o sono age na calada da noite, normalmente damos mais atenção às consequências do dia, sem relacionar com o que acontece à noite.

Assim, quando uma família procura um atendimento do filho em Neuropsicologia, a queixa costuma se dirigir à aprendizagem ou ao comportamento ou a características que se prejudicam o relacionamento dele com as pessoas, mas dificilmente é o sono quem traz o paciente para a consulta. Entretanto, quando a pergunta se faz, quase sempre algum comentário sobre o sono é colocado, encontrando, finalmente, espaço para dúvidas que cediam à falta de coragem para perguntar.

Talvez pareça tolo contar que a criança luta para não dormir porque gosta de fazer outras coisas como jogos ou televisão ou que não quer ficar sozinha no quarto ou tem fome na hora de dormir. Enfim, as outras queixas, como dificuldades escolares, irritação ou agressividade ou peso aumentado parecem assuntos mais razoáveis a reclamar. Mesmo nas escolas, realizamos estudos que mostram cientificamente que professores sofrem de estresse e distúrbios do sono e isso também atinge a aprendizagem dos alunos e por isso interessa à gestão escolar (Valle, 2015). Ou seja, está estatisticamente comprovado que os transtornos do sono existem, em todas as idades… Talvez até com o agravante da falta de prevenção desde cedo… E quando devemos começar a cuidar do sono? Agora, é claro, porque ontem já não seria possível…

Assim como o sonambulismo, outros transtornos do sono servem de tema para brincadeiras, como acontece com o ronco, que pode ser uma apneia, termo que designa uma parada respiratória e, portanto, pode ser bastante grave… Ou não… Você pode estar apenas resfriado, não é? Então, fica a questão de entender melhor esse companheiro, chamado sono, que merece mais atenção do que normalmente dedicamos a ele.

O processo do Sono é regido pelo relógio biológico, moldado geneticamente, que se ajusta num ciclo de 24 horas. Ele se regula em conformidade com fatores externos, como ruídos, luzes, odores, hábitos locais, entre outros. Embora o tempo médio de horas de sono seja de 8 horas, há pessoas que necessitam de 12 horas, enquanto outras se satisfazem com apenas 4 (Valle, L.; Valle, M e Valle, E, 2008).

A quantidade e a qualidade do sono mudam com a idade. A capacidade de dormir bem diminui com o avançar da idade. Nos primeiros meses de vida, os bebês chegam a dormir até por dezoito horas no dia. O mais importante, no entanto, é entender que o sono não é um desperdício de tempo! Muito ao contrário, ele multiplica o tempo, que seria perdido com a temida falta de concentração! Dormir, também, não corresponde a desligar um motor para religar no dia seguinte. O cérebro não pára enquanto você está dormindo e todas as funções cognitivas que você irá realizar durante o dia, dependerão de aproveitar esse tempo de atividade diferenciada e totalmente coordenada com seu sistema orgânico.

Para começar, o sono não é um estado homogêneo: são dois estados distintos de sono. Ocorrem movimentos rápidos dos olhos (Rapid Eye Movement – REM) durante uma parte do sono sendo este chamado de sono REM. Ele ocupa apenas 20% do Tempo Total de Sono (TTS) de um adulto e o restante é chamado de sono NREM (Não REM), que é composto por quatro etapas. Então, dormir bem, não é apenas fechar os olhos e ficar parado. Um ciclo de sono passa por esses estágios, que podem ser avaliados por um exame específico, chamado de Polissonografia, que mede as atividades cerebrais, o movimento ocular, a atividade muscular e cardiológica.

Passamos quase um terço de nossa vida dormindo e, a qualidade de vida, a saúde e até a longevidade, podem depender de boas noites de sono, que merecem ser confirmadas com a tecnologia nos dias atuais – há tratamento, cuidados, prevenção, tudo que os novos profissionais precisam para encontrar seu melhor desempenho (Valle, A e Valle, E; 2014). É durante o sono que as proteínas são sintetizadas com o objetivo de manter ou expandir as redes neuronais ligadas à memória e ao aprendizado. É do cérebro o comando da produção e liberação de hormônios, que interferem tanto no bem-estar físico como no bem-estar psicológico, responsáveis por um sono tranquilo. Os distúrbios do sono precisam, então, ser bem compreendidos, para não se prenderem a mitos, mas à tranquilidade do conhecimento e a cuidados reais.

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Distúrbios do sono podem acontecer por muitos motivos! Sem se dar conta, você pode se levantar no meio da noite e sair por aí… Afinal, o que é sonambulismo? Sonambulismo é um distúrbio que se manifesta durante o estágio mais profundo do sono, o sono de ondas lentas, não-REM. É um transtorno do sono que se caracteriza pela realização de atividades motoras sem a consciência plena da pessoa, que está adormecida. A palavra sonambulismo significa: andar (ambular) dormindo. Durante os episódios, a pessoa pode se sentar na cama, andar pela casa, falar sem nexo, ir ao banheiro, comer sem despertar, mudar de roupa, abrir e fechar portas e janelas. A pessoa permanece num estado de transição entre o sono e a vigília e, por isso, na manhã seguinte, não se lembra do que aconteceu durante a noite ou fica confusa, com apenas uma parte das lembranças. Esses episódios, em geral, ocorrem uma ou duas horas depois que a pessoa adormeceu, duram menos de meia hora e terminam quando ela acorda ou volta para cama para continuar dormindo.

Na infância até por volta dos 12, 13 anos, os casos costumam ser mais comuns, relativos a um amadurecimento do cérebro, desaparecendo espontaneamente, mas o sonambulismo pode acontecer com adultos e idosos. Nesses casos, tem-se mostrado útil combater os estados de tensão e ansiedade que atuam sobre o padrão do sono, procurando auxílio de especialistas do sono para compreender melhor os fatores desencadeantes e para buscar técnicas de relaxamento, psicoterapia e até medicação, quando necessária. Crises de sonambulismo podem estar associadas a febre, a doenças, como a apneia do sono e outros problemas, e devem ser tratadas.

Diziam que se os sonâmbulos fossem acordados ficariam loucos. Alguns, mais otimistas, achavam até o contrário: se o sonâmbulo levasse um susto ficaria curado. Por sorte, nem uma afirmação nem a outra são verdadeiras. Sonâmbulos podem ser acordados e despertarão meio confusos, naquele momento, mas assustá-los não trará qualquer benefício. O melhor mesmo é levá-los com calma de volta para a cama a fim de que continuem dormindo, tomando todos os cuidados para que não se machuquem.

Ao conviver com uma pessoa sonâmbula você deve ter alguns cuidados especiais com o ambiente, como trancar portas e janelas e retirar as chaves das fechaduras; colocar telas ou grades de proteção nas janelas; bloquear o acesso às escadas, mesmo de beliches; guardar objetos cortantes ou que atrapalhem a passagem. Embora a causa do sonambulismo ainda seja desconhecida, sabe-se que ocorre mais no sexo masculino e que tem sido reconhecido o componente genético, ou seja, há maior tendência de ocorrer quando o fenômeno é observado em outros membros da família. Para cuidar do sonambulismo são recomendados os mesmos cuidados de Higiene do Sono, indicados para um sono satisfatório (www.ribeirodovalle.com.br), como uma alimentação saudável, atividades equilibradas, evitando agitação antes da hora de dormir. O melhor de tudo, ao se cuidar para desfrutar de um sono saudável, é a certeza de que você estará investindo em todas as suas atividades de vigília, afinal, o sono completa o ciclo do sistema biopsicosociológico que nos mantém ativos e em ótimo funcionamento. Melhor do que ter só bons sonhos enquanto você está dormindo, é poder realizar esses sonhos, acordado!

 

*Luiza Elena Leite Ribeiro do Valle é doutora em Ciência e Psicologia (USP/SP), mestre em Psicologia Escolar e Educacional, especialização em Psicologia Clínica, Psicopedagogia. MBA Executivo em Gestão de Pessoas pela AVM, Brasília. Extensão em Competências Gerenciais pela Fundação Getúlio Vargas. International Couch pela Lambent. Diretora de Pesquisa da Sociedade Independente de Neuropsicologia Clínica (SINC). Membro ad hoc do Conselho Editorial da Revista Psicopedagogia (ABPp). Pesquisadora CNPq, membro do Grupo de Pesquisa Avançada em Medicina do Sono, do HC/FMUSP e da Associação Brasileira do Sono. Autora de livros e artigos científicos e organização de Congressos Científicos.
Fonte: VALLE, L. E. L. R. Sono e Sonambulismo. Revista Mistérios da Psique: Mythos Editora, Ed. 05, p. 25-29, 2017.