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EMPATIA

DIFICULDADES COMPARTILHADAS

Saber como desenvolver a empatia pode trazer muitas vantagens, principalmente quando precisamos desabafar. Veja mais sobre essa capacidade

TEXTO Giovane Rocha/Colaborador DESIGN Josemara Nascimento

TODAS AS PESSOAS, SEM EXCEÇÃO, SOFREM COM ALGUM TIPO DE PROBLEMA, MESMO QUE O NÍVEL DAS ADVERSIDADES SEJA SUBJETIVO. E CABE A NÓS ESCOLHERMOS COMO LIDAR COM CADA UM DELES.

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Fotos: Shutterstock Images

No entanto, isso não quer dizer que cada enfrentamento deve ocorrer de forma solitária. Às vezes, por achar que sofrerá julgamento de outros indivíduos se compartilhar suas dificuldades, o isolamento parece ser o caminho mais fácil. Porém, é importante ter em mente que sempre há alguém que você poderá contar para dividir o peso do que está incomodando – ou seja, uma pessoa com quem desenvolverá uma relação de empatia.

AFINAL, O QUE É EMPATIA?

Em resumo, é a ação de se colocar no lugar de um outro indivíduo ou, como indica a psicóloga e psicanalista Cleunice Menezes, a capacidade psicológica de buscar a compreensão de adversidades alheias. “É a prática de se voltar para as situações vividas por outra pessoa de acordo com o olhar dela e, ao mesmo tempo, estar neutro, isento de seus próprios julgamentos. Para que alguém seja empático, terá de exercitar sua imparcialidade”, continua a profissional.

A empatia deve transparecer mesmo, e principalmente, se o problema do próximo não aparentar ser uma dificuldade para você. Quando uma pessoa divide uma adversidade com você, quer dizer que ela sente uma confiança forte o suficiente para contar algo que está deixando-a desconfortável. Assim, o mínimo que se pode fazer é confirmar essa segurança, estando a todo ouvidos. Entretanto, “isso não quer dizer que aceitamos ou concordamos com a opinião das demais pessoas, mas que estamos dispostos a ouvi-las sob a sua ótica”, conclui Cleunice.

VANTAGENS DE SABER ESCUTAR

Ser mais empático traz inúmeros benefícios, principalmente quando se trata do desenvolvimento profissional. Isso porque, de acordo com a professora de psicologia Berta Sheila, “melhora o relacionamento entre equipes, aumenta a capacidade de tolerância e respeito à dificuldade alheia. Além de trazer um sentimento de igualdade, na medida que a pessoa percebe que também precisa da compreensão do colega com as próprias necessidades”.

Desse modo, quanto maior for a empatia com os companheiros, maiores serão os benefícios para a empresa, gerando cada vez mais produtividade, efetividade e harmonia no ambiente de trabalho. Sem contar no desenvolvimento das relações interpessoais na vida social em geral.

PODE ACONTECER COM QUALQUER UM?

Quando se fala em empatia, logo se pensa em uma conexão extremamente profunda de uma pessoa com outra, como se fosse algo místico exclusivo de melhores amigos.

“Cheiros, vozes, gestos, formas e jeitos de ser se associam em experiências que diferenciam cada um, sem que tenhamos até mesmo consciência disso, mas realmente há pessoas que parecem tão fáceis de entender, enquanto outras nos exigem mais esforço”, afirma a psicóloga Luiza Elena do Valle.

Por outro lado, enxergando de uma perspectiva mais técnica, é possível treinar a empatia, para que se consiga exercer com qualquer pessoa. Nesse ponto de vista, especialistas compreendem que é viável fortalecer a empatia no cérebro por meio da prática de habilidades como concentração, escuta, percepção e memória.

“As memórias podem favorecer a uma relação mais empática do que outra. Por exemplo, uma pessoa que já viveu a experiência de perda de um ente querido pode conseguir compreender mais facilmente o que sente quem acabou de ser demitido (a experiência de perda, seja de qualquer natureza, favorece a empatizar)”, afirma Berta Sheila.

A NEUROCIÊNCIA EXPLICA?

Assim como outras competências mentais são desvendadas por pesquisas e estudos no campo da neurociência, como memória, concentração e raciocínio, a empatia também tem respostas vistas por esse lado.

A neurocirurgiã Raquel Zorzi cita que, em um estudo publicado na revista científica Journal of Neuroscience em outubro de 2013 pelo pesquisador Max Planck, identificou-se que o egocentrismo é uma característica natural do ser humano.

Mas, em contrapartida, também foi descoberto que há uma área cerebral, chamada de giro supramarginal, que corrige esse excesso de egoísmo, reconhecendo a falta de empatia. “Quando essa região do cérebro não funciona adequadamente, os pesquisadores descobriram que sua capacidade de empatia é drasticamente reduzida. Essa região nos ajuda a distinguir o nosso próprio estado emocional do de outras pessoas, sendo responsável pela empatia e compaixão”, explica a neurocirurgiã.

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Fotos: Shutterstock Images

EMPATIA POR TABELA

Outra forma de explicar e desenvolver a empatia é se fizermos uma ligação com os neurônios-espelho. Essas células nervosas, primeiramente relacionadas a ações motoras, são ativadas quando se observa uma pessoa praticando alguma atividade, como quando a intenção realmente é imitar alguém ou recriar uma ação.

Raquel Zorzi esclarece que, além de imitação, esses neurônios também se encarregam de certos pensamentos e comportamentos, por exemplo, a empatia. “Muitos estudos têm argumentado de forma independente que o sistema de neurônios-espelho está envolvido em emoções e empatia”, continua a especialista. “Isso quer dizer que, quando vemos uma determinada emoção expressada pela pessoa, ativamos esses neurônios que ‘simulam’ como se nós mesmos estivéssemos vivendo aquele sentimento”, conclui. Isso possibilita que um ser humano consiga se colocar no lugar do outro, um aspecto fundamental da empatia.

EXERCITE

Essa não é exatamente uma técnica fácil de se colocar em prática, visto que as relações humanas são complexas. Também deve-se levar em conta que o individualismo é uma característica cada vez mais recorrente, uma vez que temos cada vez menos tempo para nos preocuparmos com o próximo.

Segundo Raquel, “graças à maleabilidade dos circuitos neuronais do nosso cérebro, chamada de neuroplasticidade, sua tendência de empatia e compaixão nunca é fixa”, ou seja, é possível reprogramar o cérebro para que seja mais compreensivo em pequenas escolhas no dia a dia.

Por isso, abaixo, separamos dicas da psicóloga Cleunice Menezes para você conseguir desenvolver a empatia e, assim, se colocar à disposição de alguém que necessite de compreensão.
1. Pratique a escuta com a intenção de compreender o outro.
2. Evite dar conselhos.
3. Compreenda suas próprias emoções e sentimentos: isso lhe proporcionará um maior entendimento sobre as emoções do outro. “Colocar-se no lugar dele também traz um alívio para a solidão e estimula novas possibilidades de enfrentamento, com percepções e raciocínios mais enriquecidos”, complementa a psicóloga Luiza Ribeiro do Valle.
4. Tente compreender o outro sem julgamentos. “Respeitar o que o outro sente não implica em ter que sentir o mesmo, mas em aceitar que essa pessoa se sinta assim”, aconselha Luiza.
5. Não esqueça que cada ser humano possui uma maneira de ver o mundo – cabe a nós respeitá-lo, pois todos os pontos de vista são válidos e respeitáveis.

VIA EMPÁTICA

Um artigo publicado na revista científica Proceedings of The National Academy of Sciences, em abril de 2016, por pesquisadores de diferentes instituições alemãs, buscou demonstrar que o cérebro humano possui um mecanismo responsável por fazer com que pessoas que possuem estados mentais semelhantes sejam atraídas e consigam se entender. O estudo mostra que, quanto mais conseguimos entender as emoções alheias, mais nos sentimos atraídos por aquela pessoa.

Os pesquisadores ainda identificaram que as mudanças em relação à atração entre os indivíduos voluntários estavam diretamente ligadas ao sistema de recompensa no cérebro.

CONSULTORIAS
Berta Sheila, coordenadora do curso de psicologia da Faculdade Anhanguera, em Niterói (RJ); Cleunice Menezes – psicóloga e psicanalista; Luiza Elena Ribeiro do Valle, psicóloga e autora, com Alexandre Ribeiro do Valle, do livro Novos Desafios do Mundo Profissional (Wak Editora, 2014); Raquel Zorzi, neurocirurgiã.

Fonte: Empatia. Dificuldades Compartilhadas. Revista Ciência em Foco - Inteligência Emocional: Editora Alto Astral, Bauru - SP, Ano 1, n. 1, p. 22-25, out. 2016.