CÉREBRO E APRENDIZAGEM

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Cérebro e Aprendizagem

LUIZA ELENA VALLE - REVISTA ESCOLA PARTICULAR 227 - FEVEREIRO 2017_page_48

por Luiza Elena Leite Ribeiro do Valle*

 

O objetivo deste artigo envolve o desenvolvimento de recursos prazerosos e eficazes de aprendizagem satisfatória, nas diversas situações da vida.

Funções cognitivas são essenciais na aprendizagem e, desse funcionamento cerebral decorre o desempenho nas diversas atividades. Assim, o conhecimento e aplicação prática de exercícios direcionados para as finalidades desejadas podem permitir resultados eficazes. Sendo a memória a atriz principal na aprendizagem, a proposta desse trabalho considera ferramentas que possam fortalecer a “amizade” com tal personagem, através do desenvolvimento de funções cognitivas, que ganham uma “roupagem” diferente para que se tornem mais visíveis.

As emoções são aspectos inerentes ao desenvolvimento e não podem ser ignoradas nas ações diárias, por isso, são indispensáveis numa proposta relacionada ao comportamento.

O aprendizado ocorre por uma mudança no comportamento, diante da aquisição de conhecimentos e pela capacidade de armazenar essas informações codificadas na memória.

A memória é a recuperação das informações e pode ser considerada, basicamente, de dois tipos: não-associativa: refere-se a tarefas repetitivas (habituação, sensibilização, imitação); são comportamentos que são realizados sem interferência de consciência, como levar à boca o alimento que quer comer, porque já se habituou à tarefa, ou porque sentiu fome, ou porque todos em volta estão fazendo isso. Associativa: trata-se das relações entre os estímulos, como ocorre no condicionamento clássico (o fisiologista russo Ivan Pavlov observou que o seu cão salivava com a aproximação da carne, e associou o alimento a uma campainha sempre que o alimentava; o cão aprendeu a salivar com o toque da campainha).

A aprendizagem, em uma visão cognitiva, é o resultado de reestruturações internas ao indivíduo que leva ao conhecimento. É um tipo de adaptação que ocorre de duas formas: sensório-motora: por meio de percepções e movimentos relacionados; por exemplo, quando você observa um obstáculo no chão, você eleva a perna para ultrapassá-lo. Conceitual: por representações mentais e abstratas, não necessariamente, ligadas à ação ou ao objeto. Por exemplo, uma maçã pode ser um alimento de sua preferência, mas se você acabou de ouvir um noticiário sobre a contaminação dessa produção agrícola, você poderá jogar a maçã no lixo.

Quanto mais for requisitado, mais o cérebro responde. O tecido nervoso é responsável pela integração de todas estas células num organismo e se compõe de células com características especiais de transmissão de impulso (responsáveis pela percepção dos estímulos ambientais, condução, análise e resposta), chamadas neurônios.

A própria complexidade de nosso cérebro permite compreendermos a dificuldade de prever o comportamento humano depois de algum estímulo.

Os sentidos são a porta de entrada do conhecimento. O primeiro passo, portanto, é conhecer o próprio sistema sensorial preferencial, que pode ser valorizado na aprendizagem, explorando aquela forma do aprender eficaz, com menos esforço. Assim, para algumas pessoas basta ouvir uma música por uma só vez e serão capazes de repeti-la, até sem planejar ou sem entender o idioma. Imagine se usasse essa facilidade para estudar!

No processo de assimilação de novos conhecimentos e experiências, os exercícios são valiosos para o desenvolvimento do incrível e ilimitado potencial do cérebro.

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A memória se destaca entre os aspectos que interferem na eficiência da aprendizagem, presente em todas as situações.

A “amizade” com a memória pode ser conquistada, de forma agradável e fortalecedora. Entretanto, se a memória for pressionada, ou seja, com tensão ou contrariedades, a memória é capaz de se trancar e se recusar a qualquer colaboração. Esse aspecto emocional justifica a explicação de que os caminhos eficazes de aprendizagem podem ser percorridos sem sofrimento (ainda que seja necessário fazermos esforço em direção à meta decidida).

Entendendo a memória, dessa forma simples, podemos pensar em nos aproximarmos dela através de meios que facilitam esse acesso, desenvolvendo outras “amizades” indispensáveis, reconhecendo como “amigos” outros diferentes processos de aprender, aqui nomeados como compreensão – a memória se liga melhor ao que entende, então, a curiosidade e interesse em conhecer mais, só facilitam tudo, garantindo a eficiência do processo. Questionar, investigar e analisar, são os caminhos da compreensão. Podemos achar difícil memorizar aspectos de algo desconhecido, mas se sabemos os detalhes, podemos nos lembrar de aspectos geográficos, de nomes de pessoas, fatos históricos, de tudo que compreendemos, enfim. Se eu entendo que no Rio de Janeiro tem praias, tem o Cristo, e o Bondinho do Pão de Açúcar, não vou confundir as fotos típicas dessa cidade com outra. A memória melhora, conforme a compreensão: até gêmeas idênticas podem ser facilmente reconhecidas uma da outra, se compreendemos a diferença que as caracteriza. Atenção – a memória conceitual ou associativa depende de colocarmos nosso foco no aprendizado desejado. A atenção é um dos principais componentes cognitivos da aprendizagem e desenvolver esse elemento aumenta o potencial de memória rapidamente.

Diversos estímulos concorrem para dificultar a seleção do foco, a alternância entre outros estímulos que se apresentam ao mesmo tempo, e a sustentação da atenção. A necessidade de exercitar a atenção é consequência obrigatória ao desejo de melhorar a aprendizagem e o desempenho. Para exercitar, com sucesso, o ideal é nos concentrarmos em uma coisa de cada vez, dando um passo depois do outro, colocando objetivos e prazos. Repetição – a memória não-associativa depende de repetição. É simples, é divertido e fica automático. Quanto mais treinamos, mais preparamos o cérebro! A primeira vez que se ouve uma palavra ou sequência de sons, parece fácil esquecer. Se continuar sendo repetida, será aprendida qualquer língua. Basta observarmos o desenvolvimento da criança: ela nasce sem conhecer a linguagem; depois, ela brinca com o som, repete, tenta de novo e aos dois anos e meio já apresenta um vocabulário surpreendente, com possibilidades de se expressar imitando um adulto e, tudo isso, brincando de aprender (Valle, 2014). Envolvimento – dar um sentido ao que queremos aprender faz toda diferença! Quando nos envolvemos, motivados no que estamos fazendo ou buscando, qualquer esforço toma outro significado e aproveitamos cada momento conquistado, que ficará na memória, por mais que o objetivo seja pessoal e até desconhecido para os outros. Um exemplo clássico é o dos três pedreiros, questionados sobre o trabalho que faziam: o trabalho de um, era colocar tijolo sobre tijolo; o trabalho do outro era levantar paredes; o terceiro estava construindo uma igreja, que iria abrigar pessoas e acolher corações. Qual deles estaria mais feliz com seu serviço? Teatro – aprender fazendo, também funciona. Depois de fazer uma receita ou uma atividade, é possível lembrar sem esforço, porque realizamos na prática; nesse caso, se aprende até errando e o erro pode se tornar uma vantagem, para se utilizar o que aprendemos, de forma criativa, pela experiência. Associação – para novas aprendizagens, podemos reunir conhecimentos já adquiridos. Se tivermos alguma dificuldade em lembrar, por exemplo, desses “amigos” da memória, basta fazer careta, palavra que reúne as iniciais dos processos descritos. Então, quando quisermos nos lembrar de alguma coisa, não precisamos de estresse, ao contrário, podemos brincar e fazer essa careta, escolher o jeito de aprender e memorizar ou de resgatar o que já sabemos. Entre os recursos de aprendizagem, nunca é demais se lembrar de uma capacidade que destaca os homens de outras espécies vivas: uma linguagem que cria e desenvolve riqueza cultural e progresso.

Nenhum conhecimento humano está pré-formado nas estruturas mentais. É a partir da construção de uma progressão de etapas, que se seguem determinada ordem, que se dá a aquisição intelectual para chegar ao conhecimento. Essas “construções” acontecem por mecanismos de assimilação a partir das estruturas existentes biologicamente, formando as condutas de adaptação cognitiva.

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Com nosso desenvolvimento, a linguagem passa a ter papel preponderante na comunicação, levando à capacidade de predição e levantamento de hipótese , de organização do pensamento e das ações, através desse recurso que antecipa a compreensão e estabelece uma memória combinada com signos e sinais estabelecidos anteriormente, dando significado a imagens mentais e lembranças que podem ser evocadas com uma palavra ou gesto.

A linguagem influencia também na formação da personalidade. Convém lembrar que, durante a infância são internalizadas mensagens, como instruções que a pessoa se sentirá compelida a cumprir. Frases faladas no dia-a-dia podem contribuir com a formação do autoconhecimento e autoestima, com expectativas, às vezes, definidas negativamente, por exemplo, como: “Você não tem cabeça para os estudos!”. Saber sobre a importância da linguagem, pode permitir que ela seja usada favoravelmente no desenvolvimento e nas próprias mensagens que enviamos ao nosso cérebro. A aquisição da leitura e escrita é função da consciência fonológica, definida como a consciência de que a fala pode ser segmentada e a habilidade de manipular tais segmentos pode ser aprendida e melhorada. Essas habilidades incluem: atenção aos sons da fala, capacidade de representação mental, memória e processamento temporal (ritmo, sequências, capacidade de sintetizar, segmentar, adicionar, subtrair, transpor).

Por isso, a leitura e escrita também ganham espaço nos processos que dizem respeito ao Cérebro e à Aprendizagem. Exercícios voltados para melhorar a leitura e a escrita, em verdade, envolvem outros processos, como a percepção, que atua como um detetive, levando para o cérebro as pistas que tomam sentido e novos rumos, com auxílio do raciocínio, praticamente, um super-herói, porque pode mudar o destino das respostas.

A linguagem está tão relacionada com nosso jeito de ser, que, ao nos sentirmos intranquilos, ela pode se revelar traiçoeira, mas é nossa força de expressão! Uma aliada a ser conquistada. 

Imagem3*Luiza Elena Leite Ribeiro do Valle, Psicóloga e Mestre em Psicologia Escolar e Educacional, Doutora em Ciência e Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP,  Especialização em Psicologia Clínica e Psicopedagogia. Autora dos livros “Cérebro e Aprendizagem – um jeito diferente de viver” e “Aprendizagem, linguagem e pensamento” (Wak Editora).

 

Fonte: VALLE, L. E. L. R. Cérebro e Aprendizagem. Aprendizagem II. Revista Escola Particular: SIESP, Ano 20, N. 227, p. 48-50, fev. 2017.