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Adolescência

O MITO DE DRAMAS E CONQUISTAS DA ADOLESCÊNCIA

por Luiza Elena Leite Ribeiro do Valle*

A adolescência, o momento em que já não se é mais criança, mas também ainda não é um adulto. Uma fase de transformações que pode ser determinante na formação de uma identidade.

WAK - LUIZA OLIVA - ADOLESCÊNCIA - CONHECIMENTO PRÁTICO LÍNGUA PORTUGUESA 60 - AGOSTO DE 2016 - pgs 8 e 9-imagem1Na estranha trajetória humana, cada acontecimento se sucede deixando exposto um novo mundo. Foi Freud,Conceito e Perfil o neurologista austríaco, que, inicialmente, apontou a presença de impulsos do bem e do mal, ou seja, a dualidade dos instintos desde a infância. A convivência com sentimentos e conflitos de amor e raiva é a base de experiências que estão presentes na adolescência, fase em que o autocontrole se encontra em evolução. O desenvolvimento se marca pela multiplicação de conexões neurológicas no cérebro, que perdura ainda na fase da adolescência com um ritmo acelerado.

Um dia, as crianças esticam… Os brinquedos, as roupas e os contornos do corpo e do pensamento se transformam! Os adolescentes se desgastam em tentativas de autoafirmação, enquanto nos esforçamos em reconhecer seu papel e os empurramos para um lado e outro, repetindo, frequentemente: “-Você ainda é criança!”. Ou, ao contrário: “Você não vê que é muito grande para isso?”.

Para o jovem, as mudanças também surpreendem. De repente, sua identidade parece-lhe desconhecida. Impulsos e pensamentos brigam entre si, alheios ao universo. Alguns jovens se calam mais e nos preocupam por adivinhar, por trás da quietude observada, um turbilhão de fantasias. Outros jovens se agitam e encontram no grupo de “iguais” o eco para uma linguagem destoante daquela praticada por outras pessoas. Ele nos fazem pensar que temos muito mais a aprender do que a ensinar. Eles riem, se entendem e até se perdem em intermináveis conversas, porém emudecem diante de quem, até então, centralizava seu espaço.

WAK - LUIZA OLIVA - ADOLESCÊNCIA - CONHECIMENTO PRÁTICO LÍNGUA PORTUGUESA 60 - AGOSTO DE 2016 - pgs 10 e 11-imagem2O limite de emoções não parece atender ao bom senso. Sorrir, chorar, se irritar, se distrair ou vibrar revelam sentimentos que passam fora da medida dos acontecimentos que os provocam. Uma palavra pode representar um desaforo de marcante contrariedade e um olhar pode significar uma porta de esperanças nesse céu de contrastes inexplicáveis. O que dizer, se as emoções precisam ser vividas para serem reconhecidas?

A sexualidade, surgida nas entrelinhas das mudanças, ganha vez e é normal ou deveria ser. Como sexo é algo desconhecido no universo do adolescente, desperta curiosidade e tende a se iniciar cada vez mais precocemente na prática de relações sexuais, muitas vezes até mesmo por pressão do grupo social ao qual se encontra ligado. Em nossa sociedade, o tema sexualidade se cerca de mistérios e tabus. Diante do silêncio em casa, o adolescente tende a procurar informações com colegas, também imaturos, contribuindo, para aumentar os riscos que a falta de maturidade não permite enxergar.

O adolescente tem na cabeça um mundo agitado pelos sentimentos intensos, ainda infantis, Conceito2desordenados por hormônios em busca de ajustamento, mas com uma capacidade privilegiada para construir fantasias sobre o futuro com sofisticação de dados reais, comunicados sem seleção de público e com poderes especiais para uma geração marcada pela tecnologia da informação.

Por dentro e PerfilA segurança do “saber” dos jovens pode nos deixar desconfortáveis, pois eles não se assustam com os alertas de perigos que procuramos informar. Sentem-se inatingíveis por vícios, como o álcool, as drogas ou por companhias que cobram valores diferentes do que lhes passamos. As bebidas e as drogas desconectam o jovem do seu eixo e causam estragos nessa construção neurológica que permeia o comportamento. Como resultado dessa falsa invulnerabilidade, a descoberta de uma imunidade que estão longe de apresentar, às vezes, deixam os adolescentes rebeldes a limites essenciais, como o cumprimento dos deveres acima do prazer, respeito ao calendário escolar que não se faz conforme sua vontade ou sequer valorizam os horários do sono, que regulam a saúde. Supondo-se dono do tempo e tendo o presente como relógio, prevenir consequências desagradáveis e graves não parece um desafio que precisam enfrentar. As tentações negativas ganham vulto e o adolescente perde a chance de viver esse momento exclusivo de emoções novas a cada dia. Adiar a satisfação é resultado de um amadurecimento e denota capacidade e avaliar para fazer escolhas.

A esperança se perde, quando morrem as expectativas e a adolescência é a entrada de uma fase de vida, precisa de sonhos. Embora se tenha que perder algumas vezes para melhorar, é com as dificuldades que se aprende, ou como diria Piaget, em sua teoria do desenvolvimento: a assimilação ocorre após um desequilíbrio, necessário para a adaptação.

Quando o adolescente se envolve em metas, ele pode tudo, se souber vencer as frustrações inevitáveis do percurso. Ele pode manter em si a intensidade da criança, mas com respeito às regras do jogo, mesmo acreditando ter a responsabilidade do adulto e ser capaz de mudar a trajetória dos planetas. A adolescência é, de fato, uma fase, que tenta traduzir ideias em ação, na efervescência da vida.

Aqueles que passam por uma boa adolescência, até tentam mantê-la, ao máximo, entendendo que não precisam ter pressa para independência, que resulta em perder as vantagens de cuidados tão desejados. Crescer traz o lado positivo da busca de pertencimento que o adolescente possui, com a vontade de converter amigos que possam aceitá-los, apesar das máscaras, que os jovens usam e desusam enquanto caminham para se descobrir, até poder se gostar com a própria identidade.

Difícil é olhar para nossos jovens sem crítica, quando vivemos atolados em estresse e nada parece mais importante do que aquilo que temos em mente em relação aos resultados. Por isso, fica difícil ouvir devaneios, que nos confundem quanto à segurança do futuro que desejamos para os jovens. Ao mesmo tempo em que os adolescentes parecem saber tudo, eles querem, o tempo todo, apenas nos provar sua capacidade de pensar e escolher e de responder à nossa expectativa em relação à sua autonomia. Eles vivem uma aventura que desconhecemos, portanto, não podemos julgar.

Os riscos existem e estão por perto! Como o fogo que se intensifica, quando você sopra para apagar uma brasa, as palavras podem trazer a impressão de incompreensão, que empurra o jovem para mal conselheiros que nos afastam, justamente quando queremos estar por perto…   E como encontrar o caminho?    A resposta está na conversa franca,    sem
críticas,   construindo a confiança que segue para toda vida.   O diálogo não é o mesmo que um monólogo,   ainda que seja
dito em conjunto, com cada um na sua. Abrir o coração não é fraqueza, é amor.

A adolescência traz o diferencial de energia e criatividade necessárias para desafiar a mesmice e transformar o mundo, renovando o olhar e ousando fantasiar metas impossíveis… E por que não?

*Luiza Elena Leite Ribeiro do Valle, Doutora em Ciência e Psicologia (USP/SP), Mestre em Psicologia Escolar e Educacional, Especialização em Psicologia Clínica, Psicopedagogia. Autora dos livros "A Aprendizagem na Educação de Crianças e Adolescentes" e "Adolescência: As Contradições da Idade". 
Fonte: VALLE, L. E. L. R. O Mito de Dramas e Conquistas da Adolescência. Comportamento. Revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa: Editora Escala, Ed. 60, p. 8-11, ago. 2016.